Bálsamo

Quando se trata de tu, eu renasço
Só para ter de novo o teu abraço
Eu me queimo nas entrelinhas de beijar-te
Estou leve e nostálgica, só preciso encontrar-te
Nós dois, sintaxes e singulares
Nós, feito um nó nesse universo admirável
O seu olhar é verso que eu leio infinito
Ah amar é um bálsamo, conhecer-te fez as horas terem sentido.

Poetisa de Vênus

O que há no depois?

Depois, a roupa predileta não serve
Depois, o café se esfria
Depois, aquela proveitosa conversa passa
Depois, a tempestade arrastou tudo
Depois, os olhares não são os mesmos
Depois, a beleza que é líquida, evapora
Depois, o momento virou passado
Depois, após o crepúsculo, o que restou foram as memórias de uma vida.

Soneto “Tarde de Inverno”

Sob o curvo cristal da imensidade
De um céu de transparência etérea e fria,
Em que do posto sol a claridade,
Azul e melancólica, radia,

Vemos o bosque, o rio, a amenidade
Das sombras, a ondulada pradaria,
Como um painel de estranha suavidade
E encantadora e rústica poesia.

Olha como o formoso fruto loiro
Salpica de pequenos pontos de oiro
Aquela verdejante laranjeira!

E além, além, do céu no alaranjado
Fundo se esbate e avulta o recortado
E sombrio perfil da cordilheira…

Júlia Cortines

Fagulha, de Ana Cristina César

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Soneto 18

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare

Noites amadas

Ó noites claras de lua cheia!

Em vosso seio, noites chorosas,

Minh’alma canta como a sereia,

Vive cantando n’um mar de rosas;

Noites queridas que Deus prateia

Com a luz dos sonhos das nebulosas,

Ó noites claras de lua cheia,

Como eu vos amo, noites formosas!

Vós sois um rio de luz sagrada

Onde, sonhando, passa embalada

Minha Esperança de mágoas nua…

Ó noites claras de lua plena

Que encheis a terra de paz serena,

Como eu vos amo, noites de lua!

(Macaíba – Agosto de 1898).

Auta de Souza

Primavera 🌺

É Primavera agora, meu Amor!

O campo despe a veste de estamenha;

Não há árvore nenhuma que não tenha

O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor

Da vida… não há bem que nos não venha

Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!

Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,

E agora cheiro a rosmaninho e a nardo

E ando agora tonta, à tua espera…

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos…

Parecem um rosal! Vem desprendê-los!

Meu Amor, meu Amor, é Primavera!…

Florbela Espanca

Idas e vindas ♥️

Ir-me-ei
Se tivesse coragem
Se tivesse passagem aí pro teu peito
Se eu não fosse tão transitório
Dir-se-ia
Que as tuas cores peculiares
São como um espectro solar
Que vagueiam os meus pensamentos inversos
Perder-me-ia nos teus olhos de jabuticaba
Seria eu e tu, fitando o céu, seguindo a jornada
E seríamos o que sobrasse de nós, o amor, não a alguria.

Angela Maria V.

Ela é arte 🌻

Ela é como os girassóis de Van Gogh
Naturalmente impressionista
Abrindo um sorriso surrealista
Com um contorno notável
Uma moldura apreciável
Mas ela é ainda um mistério para si
É lastimável não terem a conhecido
Ela é uma flor rara que se fortalece a cada dia
Ancorada na fé, aprendeu em sua nobreza
A mergulhar nos seus sonhos
Sabe ser calmaria em meio a suas tempestades
Suponho que tua luz ultrapassou as docas, portos e pontes. És a estação cromática
És uma leitura tranquila

Angela Maria V.